terça-feira, 11 de novembro de 2014

Pior que um burro é um teimoso


Custa ver como a Europa se vai boicotando a si própria. A partir de uma teimosia. É o que o burro pode ser ensinado e mudar de caminho; o teimoso às vezes nem por isso.

Dito isto, este é um post long, chato, e absolutamente dispensável excepto para o autor organizar a sua própria cabeça. Mas, consta, é também para isso que servem os blogs. Só não se diga que não foram avisados.

Cinco pontos sobre o Quantitative Easing que o BCE diz que vai fazer (pela undécima vez):
 
1) Pode o BCE agir para fazer outra coisa que não controlar a inflação, isto é, tem um papel a desempenhar no relançamento da Economia?

Sim.  

Muitas vozes têm dito que o BCE estará já a fazer mais do que o mandato que lhe está atribuído, desde logo as vindas do Bundesbank e de certos sectores do pensamento económico.

Alegam, e o próprio BCE tem suportado esta visão, que o banco tem como objectivo único manter a inflação próxima dos 2%, isto é, estabilidade de preços e que qualquer outro objectivo lhe está vedado.

Este racional é muitas vezes invocado para explicar as diferenças entre as políticas mais agressivas no combate à crise da Reserva Federal Norte-Americana, do Banco de Inglaterra ou, mais recentemente, do Banco Central Japonês.

Nada mais errado, como uma leitura dos Tratados permite perceber. Desde logo, o BCE não tem um mandato único: tem um mandato primário (na redacção inglesa dos Tratados) ou primordial, na discutível versão portuguesa.

Em qualquer caso, o que diz o Artigo 127.º n.º 1 do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia é o seguinte:

“O objectivo primordial do Sistema Europeu de Bancos Centrais, adiante designado «SEBC», é a manutenção da estabilidade dos preços.”

Primordial, ou primário indicam, desde logo, que é um, e o principal, mas não o único.

Aspecto que é reforçado pela continuação do mesmo artigo 127.º n.º 1 que esclarece:

“Sem prejuízo do objectivo da estabilidade dos preços, o SEBC apoiará as políticas económicas gerais na União tendo em vista contribuir para a realização dos objectivos da União tal como se encontram definidos no artigo 3.o do Tratado da União Europeia.”

Literalmente, o que o tratado diz é que, desde que não se comprometa o objectivo de estabilidade de preços (no médio e longo prazo, acrescentamos nós) o BCE tem como mandato, não como opção que livremente exercerá, mas como uma obrigação que sobre ele impende, contribuir para a prossecução dos fins da União fixados no Artigo 3.º do Tratado da União Europeia.

O qual, por sua vez, dispõe (destaques nossos):

“A União estabelece um mercado interno. Empenha-se no desenvolvimento sustentável da Europa, assente num crescimento económico equilibrado e na estabilidade dos preços, numa economia social de mercado altamente competitiva que tenha como meta o pleno emprego e o progresso social e num elevado nível de protecção e de melhoramento da qualidade do ambiente. A União fomenta o progresso científico e tecnológico.

A União combate a exclusão social e as discriminações e promove a justiça e a protecção sociais, a igualdade entre homens e mulheres, a solidariedade entre as gerações e a protecção dos direitos da criança.

A União promove a coesão económica, social e territorial, e a solidariedade entre os Estados-Membros.”

Ora no actual contexto, quer numa visão de curto prazo, quer numa visão de médio-longo prazo a Europa não enfrenta pressões inflacionistas. Aliás, se algum risco se tem de assumir é a possibilidade de termos um cenário de deflação com taxas de juro baixas, o tipo de ciclo vicioso em que o Japão esteve durante muitos anos.

Logo, se o objectivo primordial está atingido, o BCE não só pode como deve tentar contribuir para a realização dos demais objectivos. Assim, uma política monetária seja ela "convencional" ou "não convencional" mais agressiva indexada, por exemplo, como fez recentemente a Reserva Federal Norte-americana, a um dado objectivo de baixa do desemprego, é não só permitida como imposta pelos Tratados.



2) O QE resulta?



Bom, depende do sistema financeiro estar em condições. Resultou nos Estados Unidos. Dúvido que resulte na Europa (já lá vamos).



Desemprego lá:



Cá ... cá vamos assim. E em Portugal pior que a média (aquele número entretanto desceu mas ainda é mais do dobro dos números americanos).









O mesmo se passa, obviamente, com o PIB.



3) E as medidas anteriores? Os LTRO e afins, para que serviram?



Bom, para forrar de dinheiro os Bancos na Europa do Norte à custa da posição relativa dos Bancos da Europa do Sul. Não é interessante?







4) Mas fazer QE não é ter logo uma inflação galopante. Afinal, imprimir dinheiro está sempre errado por isso, não é? 


Não: 




5) Mas se o QE à americana não funcionar também ele na Europa ficámos sem mais opções, certo, portanto, isso prova que nada se deve fazer?



Mentira. Há sempre opções. Ainda que possam ser polémicas. Como a que já defendemos no Diário Económico, com o texto original (citado aqui em itálico) agora acompanhado da inclusão de alguns gráficos e breves referências bibliográficas, incompatíveis com as limitações de espaço naturais num artigo de opinião.



Mark Blyth, no seu recentíssimo “Print Less but Transfer More - Why Central Banks Should Give Money Directly to the People” (com Eric Lonergan) trouxe para a discussão pública uma questão que tem sido remetida ao obscurantismo pela força dominante do pensamento alemão sobre o papel que um Banco Central pode e deve ter quando confrontado com uma crise económica.



O artigo está integralmente disponível no número deste mês da Foreign Affairs, e pode ser consultado aqui.



Com interesse manifesto ver também as referências ao mandato do BCE, que tive o prazer de discutir directamente com o próprio, numa visão mais “jurídica” dos Tratados no seu ““The Sovereign Debt Crisis That Isn’t: Or, How to Turn anLending Crisis into a Spending Crisis and Pocket the Spread”.



Se aceitarmos a premissa de que, perante um cenário de inflação muito baixa, ou mesmo deflação, com taxas de juro já próximo do zero, o Banco Central deixa de conseguir estimular a economia com políticas monetárias ditas convencionais (via taxa de juro), temos de aceitar a consequência: são precisas medidas não convencionais. De preferência, já.



Sobre este conceito veja-se, por todos, Paul Krugman, por exemplo aqui e aqui.



Mas até aí a Europa enfrenta um cenário difícil. Copiar as políticas não convencionais americana, inglesa ou japonesa é uma solução melhor que não fazer nada, mas está longe de ser a ideal. O chamado Quantitative Easing depende um sector financeiro capaz de funcionar como correia de transmissão à economia real do alívio monetário, mas temos uma Banca tolhida pelo peso de balanços gigantescos cuja limpeza de imparidades está por fazer.



Os dados em presença são estes (retirados a conferência de Mark Blyth em Lisboa, a convite do IDEFF, disponível aqui).



É verdade que os Bancos americanos têm balance sheets muito expressivas:







Mas não é menos verdade que a situação é muito pior na Europa, mais de duas vezes pior:






E, cálculos nossos, o mesmo se passa em Portugal (dados de finais de 2012):







Mais provas fossem precisas, basta termos em conta que dois gigantescos LTRO se traduziram em resultados nulos quanto à concessão de crédito à economia, que continuou em queda: 









É nesse contexto que a proposta de Mark Blyth assume particular importância: oferece um caminho alternativo e com vantagens. O estímulo monetário à Economia feito directamente junto das famílias é, desde logo, mais rápido nos seus efeitos. Como cada pessoa terá as suas prioridades (consumo, aforro, investimento), não teremos a criação de bolhas de activos, como é provável no QE tradicional. E, por fim, pode por essa via fazer‑se um reequilíbrio ad-hoc e interino, da Zona Euro, que continuará a precisar, para o futuro, de mecanismos permanentes com o mesmo objectivo. A reacção não será boa. Para além do fantasma alemão da inflação (historicamente falso e culturalmente empolado), vamos ouvir falar de “radicalismos”. Mas esta é uma proposta tudo menos marginal. Basta ver o que sobre ela escreveram, entre outros, Milton Friedman, ou Bernard Bernanke.



Sobre o erro histórico alemão de associar o fenómeno da inflação ao surgimento do regime nazi, sendo que o mesmo beneficiou muito mais do período de deflação pode ver-se o excelente sumário da insuspeita Economist, e as fontes aí referidas.



Para melhor conhecer a posição de Bernandke ver aqui.



Sobre a política monetária e em complemento recomenda-se ainda “Revisiting Monetary Policy in aLow-Inflation and Low-Utilization Environment” ou “The Potential Instruments of Monetary Policy”.



O óbice final? A Alemanha, que continua a fingir que não percebe que, enquanto uma das maiores beneficiárias do Euro, sob a forma de uma zona de comércio livre para os seus produtos com 500 milhões de consumidores e uma taxa de câmbio manifestamente mais favorável do que a que teria sozinha, não pode continuar a insistir em reservar esses ganhos para si e só para si. Entre 1992 e 2012 o PIB per capita alemão aumentou 450€. O português? 20. Alguma coisa tem de ser feita.



Quanto ao benefício em termos cambiais da Alemanha vejam-se os seguintes dados (de Dominick Salvatore):










 A quantificação dos dados sobre os ganhos no PIB per capita resulta de um paper recentíssimo (disponível, no sumário em inglês, aqui), de que se destacam estas informações, citadas no texto:








Não seria a primeira vez que a Alemanha destruía a harmonia na Europa, mas convém ainda assim evitar que tal se repita. Só depende de todos nós.



Esta conclusão, infelizmente, não precisará de fontes ou dados adicionais. É dos livros de História. Aquela que, infelizmente, se pode sempre repetir. 

Competitividade: is it all about labour costs?


Não é, e basta perceber isto, o que desequilibrou a competitividade da economia portuguesa nos últimos 15 ou 30 anos não foram tanto os custos unitários do trabalho (ULC) como os do capital (UKC).




















Como se conclui no sitio onde se furtou o gráfico (aqui):

Ora, se é assim, então por que é que o problema de competitividade reside na remuneração do trabalho e não na remuneração do capital? 

A única interpretação lícita destes dados é que o aumento da remuneração do capital em Portugal tem prejudicado mais a competividade externa do que a evolução dos salários, pelo que, a bem da justiça social, é sobre o capital que deverão recair principalmente os sacrifícios a fim de aumentar a competitividade. Mais do que o trabalho, é o capital que tem vivido acima das suas possibilidades.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Porque é que o staff é importante



Pires de Lima, Ministro da Economia, esteve imparável hoje, ao que consta. Entre outras coisas saiu-se com esta graça:















O problema é que aquela perda de valor abrange o período de responsabilidade do Governo que o Ministro integra. E, como qualquer assessor qualificado teria avisado, uma parte muito importante daquela perda ocorre já depois da entrada em funções deste Executivo (fonte):

Ainda sobre a auto-avaliação do FMI


Auto-avaliação essa que é, diga-se, um rotundo chumbo.


Sobre a reforma do IRS


Repescado daqui

Perguntas, perguntas e mais perguntas:


Manuel Faustino participou na criação do IRS no consulado de Cavaco Silva, foi o primeiro director do serviço que gere o IRS e, ao que se sabe, colaborou com o CDS-PP na área fiscal. Sendo um especialista na matéria e situando-se à direita no quadro político, a sua opinião é insuspeita. Vale a pena por isso repescar algumas das suas declarações na entrevista que ontem deu ao Jornal de Negócios (aqui, aqui e aqui).

Relativamente à reforma do IRS, Faustino sustenta que esta poderia ter sido «uma espécie de contra-reforma» para reverter o «enorme aumento de impostos» de Vítor Gaspar: «eu já tenho dito que esta proposta do IRS termina o ciclo reformista do Governo porque a primeira grande reforma foi a feita por Vítor Gaspar quando transformou o IRS num mero instrumento financeiro.» Para isso seria necessário que «visasse repor os escalões, as taxas e as deduções na sua configuração anterior.» E por que razão assim não aconteceu? «Não foi feito, em parte, devido à prioridade do IRC. A reforma do IRC vai custar-nos mil milhões de euros em cinco anos, financiados pelas famílias. E para as famílias, a reformado IRS é asfixiante

Sobre a prometida devolução da sobretaxa em 2016, Faustino diz o óbvio: «Estas medidas não são próprias de leis, são uma espécie de promessas políticas que se fazem em campanha eleitoral.» E faz notar: «É de uma grande imprecisão à luz da disciplina orçamental. Diz-se que tudo o que se arrecadar a mais será para devolver em 2016, mas isto não funciona assim. O que se arrecadar a mais será receita de 2015: não pode ficar guardado para 2016, como se o Estado fosse uma família.» Assim sendo, entende que estará em causa um presente «mais do que envenenado» que Passos & Portas deixam ao próximo governo: «2016 poderá começar com um défice de 0,5% do PIB [receita da sobretaxa]. De tal modo que, se o Governo precisar do dinheiro, não apenas terá de manter a sobretaxa como terá de a aumentar para 7%. É este tipo de criatividade orçamental que é louvado?»

Quanto ao badalado «quociente familiar», Faustino lembra «que foi sempre a direita mais conservadora que o quis, mas os que o vão aproveitar provavelmente não precisam de nenhum auxílio do Estado. Além de muito limitado quanto ao seu efeito, tem uma contradição insanável: um filho numa família monoparental vale menos do que numa biparental. É uma discriminação injustificada. Afinal, o quociente familiar não é para protecção dos filhos...» Dá um exemplo para justificar o que afirma: um casal com três filhos tem direito até 2.000 euros de benefício por via do quociente familiar. Mas um viúvo, divorciado ou solteiro, com os mesmos três filhos só pode poupar até 1.250 euros. Daí a questão que Faustino coloca: «Por que não têm também 2.000 euros, se o quociente familiar é para dividir pelos filhos?»

É esta a salganhada em que o Governo transformou o IRS, a fim de, por um lado, garantir receitas para poder continuar a desagravar o IRC e, por outro lado, satisfazer os círculos mais conservadores que se manifestam através das associações das famílias numerosas.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Para ler por inteiro


O FMI no divã. Não é bonito de ver. Os erros, as hesitações, as viragens bruscas de políticas. A falência intectual da austeridade como modelo de gestão da crise.

Está lá tudo (aqui)

The IMF’s record in surveillance was mixed. It s calls for global fiscal stimulus in 2008–09 were timely and influential, but its endorsement in 2010–11 of a shift to consolidation in some of the largest advanced economies was premature. 


Stress? O stress está nos pormenores


Os testes de stress à Banca foram recebidos em Portugal sob um único prisma: o BCP tinha chumbado mas estava (quase) tudo bem porque entretanto o assunto estava resolvido pelo aumento de capital efectuado já este ano.

E o resto dos dados? Zero atenção. É preciso ir ler lá fora. E disso resultam três ideias:

1) Não está tudo bem com o BCP. Ou está? Segundo o Banco e a nossa imprensa o reforço de capital efectuado pelo BCP resolve o problema detectado. Mas apresenta ainda, mesmo depois disso, necessidades adicionais de capital de 1,15 mil milhões segundo o Finantial Times. Ora uma de duas informações não bate certo. Talvez valesse a pena verificar.

2) O NovoBanco não fez testes de stress porque ainda não podia e o BES já não fez porque já não existia. O que poderá vir daí? Valia a pena perguntar. Porque se o NovoBanco precisar de mais capital os contribuintes serão chamados novamente a financiar o Fundo de Resolução e este o banco de que é o único accionista. Será por essa razão que o OE2015 prevê mais 1,5 mil milhões de empréstimo do Estado ao Fundo? Pode muito bem ser. Ou não. Talvez valesse a pena verificar.

3) A CGD passou por pouco no cenário adverso (6,1% quando o mínimo era 5,5%). Sobre este assunto não há grande informação porque ninguém interpelou a Caixa. Sendo o maior Banco do sistema português isso significa que é o primeiro e mais importante elo da cadeia de força do nosso sistema financeiro e sendo público isso significa que se poderia beneficiar de ter mais capital e não o tem, essa é uma opção política. Tomada em nosso nome, mas convinha sabermos porquê. Talvez valesse a pena verificar.

Opinião Pública


No Diário Económico de hoje, com alguma irritação à mistura, confesso:

E se nos interessamos? 

O primeiro-ministro, porventura cansado de ler e ouvir repetidas vezes que ele, e o Governo que dirige, cometem erros a uma velocidade tal que se torna difícil manter uma lista actualizada, podia ter optado por tentar errar menos vezes. Mas não. Isso dava trabalho. 

Mais fácil foi lançar a toda e cada pessoa que o criticou o desafio de "assumir que errou, que foi preguiçosa, que não leu, que não estudou, que não comparou, que não se interessou". A haver alguma verdade naquela frase - e há - é exactamente o oposto do que pretendia dizer Passos Coelho. 

Um português, qualquer um, não é preciso ser comentador nem jornalista, só pode tolerar tão pacatamente os sucessivos erros, hesitações, equívocos e efabulações a que tem sido sujeito não tanto porque não lê, não estuda, não compara mas, acima de tudo, porque não se interessa o suficiente.

domingo, 2 de novembro de 2014

Transferências Sociais. Demais ou de menos?


A iniciativa de introduzir um tecto para as prestações sociais não contributivas relança uma discussão antiga. Será o sistema de Segurança Social em Portugal tão generoso que temos um verdadeiro problema de desincentivo ao trabalho?

Bom, para saber essa resposta podemos ter uma visão micro ou macro e dentro destas escolher vários indicadores. Vamos a dois possíveis (um de cada). Podiam ser outros? Podiam, mas estes dois já dão alguma base para poder pensar no assunto.

1) Qual é o valor da mais discutida prestação social, o Rendimento Social de Inserção?

Dados da segurança social, de inicios de 2013, apontam para: 84,53€ por pessoa por mês (fonte) ou, se preferirmos pensar em famílias, 214.68€ por mês por família (fonte).

Vamos por aqueles números em perspectiva. o limiar da pobreza ronda os 400€ rendimento por mês, portanto o RSI mantém quem a ele recorre numa situação de privação material acentuada. Dificilmente se pode por aqui achar que temos apoio a mais.

2) Mas, claro, o RSI não é o único apoio social e temos de ver também a realidade de um ponto de vista mais macro. Quanto gastamos, afinal, em transferências sociais, em percentagem do PIB? Se calhar muito mais do que os nossos parceiros Europeus. A resposta é: não (dados Eurostat):


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Sobre a ligação entre as teorias e a vida real


Falar de Finanças Públicas não se faz, nunca se fez, sem falar, por exemplo, disto (furtado aqui):

"Um excelente trabalho jornalístico no Público de ontem, da autoria de Natália Faria, dá conta de dois estudos sobre os impactos da austeridade. 

Um, relativo ao aumento da pobreza infantil (UNICEF) e o outro sobre a devastação causada por cortes indiscriminados em diferentes prestações sociais, com significado particularmente grave no caso do Rendimento Social de Inserção (da OCDE, que sugere que a «poupança» resultante da fixação de um tecto nas prestações sociais deveria reverter para o reforço orçamental do RSI, tendo em vista reduzir a pobreza e não o défice). 

Tudo isto num país em que o fosso das desigualdades se acentua, o número de milionários aumenta cada ano de «ajustamento» que passa e onde uma maioria de direita prometeu, com irrevogável hipocrisia, «ética social na austeridade», assegurando que Portugal não era nem seria a Grécia."

Opinião Pública


Ontem, na ETV, sobre o regresso da 'troika' a Portugal com o sempre interessante André Abrantes Amaral

Em digestão


É sempre injusto tirar uma frase de um livro que explica, sem as pressas e os facilitismos tão em voga, uma ideia de fio a pavio. Mas, em minha defesa, foi o próprio que lhe deu destaque (do excelente "Da Europa de Schuman à não Europa de Merkel", de Eduardo Paz Ferreira).

 

Ou, como escrevi ali ao lado:

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Comparar OE's


Para melhorar a nossa compreensão do que muda, é útil comparar, para já com enfoque nas receitas tributárias e afins, como fica então a diferença entre o OE 2014 (considerando o segundo rectificativo) e a proposta de OE para 2015.

(carregando nas imagens elas aumentam)















E do lado da despesa? Olhemos, por agora, apenas para as áreas ditas sociais:


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Opinião Pública


De ontem, com os suspeitos do costume. Sobre o OE 2015:

Notas rápidas sobre o OE 2015


1) Previsão baixa desemprego está em desalinho com a evolução do PIB, uma vez que emprego cresce 2% e economia apenas 1,5%. E está concentrada no segundo semestre (-0,2 no primeiro semestre e o restante no segundo). Grau de confiança: moderado a baixo

2) As exportações crescem outra vez 4,7%, embora este ano deva crescer apenas 3,7%, o que supõe que as mesmas vão acelerar, o que depende essencialmente da evolução da Economia dos nossos parceiros europeus. Outra zona de risco, mas aí por factores que não controlamos de todo.

3) O stock total de dívida deverá baixar um pouco, o que são bos notícias mas nos anos anteriores a dívida ficou sempre acima da previsão. Idem para o défice.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Três notas sobre o Fundo de Resolução (reprise)


1) O Fundo é do Estado ou dos Bancos?

Esta é fácil. O Artigo 153.º - B do RGIC (aqui) classifica o fundo como pessoa coletiva de direito público, dotada de autonomia administrativa e financeira e manda aplicar-lhe, subsidiariamente, a lei-quadro dos institutos públicos. o Fundo é do Estado, digam o que disserem os responsáveis políticos.

2) Afinal, quanto contribuem os Bancos para o Fundo?

Em condições normais, os Bancos contribuem anualmente com mais ou menos 40 M€ e o Estado, por entrega do imposto especial sobre a Banca, com cerca de 130 M€. Portanto, quem financia maioritariamente o Fundo é o Estado, por afectação daquele imposto (ver Relatório e Contas de 2013, pp. 18 e ss).

Vejamos em detalhe:

 






3) De onde vieram os 4,9 MM€ para o capital do banco de transição NovoBanco criado no âmbito da reslução do BES?

Na sua maioria, e nos termos do Artigo 153.º - J do RGIC, de contribuições adicionais do Estado para o Fundo, sob a forma de empréstimos. De dinheiros públicos, obviamente.

4) A este ritmo quando é que o Fundo de Resolução reembolsa os contrbuintes? 

Supondo que a receita se mantém aos níveis de 2013, e tendo em conta que a maioria dela são impostos, logo, dinheiros públicos, o Fundo terá receitas anuais na casa dos 170 milhões de euros.

Se o Novo Banco for vendido, por hipótese, por menos mil milhões de euros do que o valor do empréstimo, estaremos a falar de um horizonte de 6 anos.

Se contarmos só com a contribuição da Banca que não é imposto, esse horizonte sobe para 25 anos. Uma vida.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Portanto



+ impostos verdes - dedução extra famílias mais numerosas = quase a mesma receita fiscal mas suportada por pessoas diferentes.

Quarta teremos os números mas isto sigifica que no fim das contas, não há qualquer baixa de impostos? Assim parece

Aspectos previsivelmente polémicos


Da parte fiscal do Orçamento que afinal não está no Orçamento mas isso é outra conversa:

"O que vai haver de algum modo é uma espécie de baralhar e dar de novo", disse, explicando que a reforma do IRS será financiada pelo próprio IRS, através da introdução do quociente familiar no cálculo do rendimento colectável, uma medida que disse ser suportada pelas famílias não numerosas, e pela reforma da fiscalidade verde, "que por acaso nasce na mesma altura".

Já relativamente a uma eventual redução da sobretaxa de IRS em 2015, uma medida recomendada pela Comissão de Reforma do IRS, o professor universitário considera que "obviamente não vai acabar" em 2015 e "se calhar não vai acabar tão cedo" porque a restrição orçamental não o permite e antecipa que "é possível" que haja uma descida da sobretaxa, a qual "provavelmente vai ser compensada por alguma coisa".

No entanto, António Carlos Santos criticou a própria lógica da sobretaxa, considerando que "não tem nada a ver" com o IRS: "Chamam-lhe sobretaxa do IRS, [mas] podiam ter-lhe chamado Capuchinho Vermelho ou outra cosia qualquer porque, de facto, aquilo é um imposto à margem do IRS e que, de algum modo, vai à boleia do IRS, é uma espécie de parasita", afirmou.

Sublinhando que foi a sobretaxa uma "solução um bocado exotérica" para arrecadar mais receitas fiscais, o antigo governante defendeu que, "a partir do momento em que essa solução foi criada, o que deveriam ter feito era integrar a sobretaxa na lógica do IRS", por exemplo, sob a forma de tributação autónoma.

Se estiver optimista, não leia




The idea that in our lives we can make rational choices which fulfill our nature and allow us to flourish as the kind of beings we are helps us to understand that we can also make choices which gradually reduce who we are and move us towards emptiness and nothingness –  evil choices, if you will.